sábado, 31 de outubro de 2009

Entre mundos

Eu sou parte deste mundo - o único que temos e que é possível viver. E por mais desesperador que seja iver nele, o nosso desespero será, sempre, fruto da nossa capacidade de enxergá-lo, de senti-lo, de participarmos dele; será a nossa visão mais (ou menos) pessmista, mais (ou menos) corajosa e otimista que dará as cores e os sabores do nosso habitat único. É este mundo, e não outros que circulam na imensidão do espaço e da nossa completa ignorância, que nos acolhe. Ainda que mostrem e gritem e descrevam, com cálculos primorosos, o que seria possível existir além da nossa fronteira intelectual - sobre o tamanha insuportavelmente assustador d universo -, será sempre a nossa cultura religiosa, aliada à nossa ignorância, mais a acomodação simplista de enxergar o céu e o inferno como os únicos finais possíveis, que dará os contornos do aceitável daquilo que é, na visão de certos dogmas, ou, tudo não passaria de uma inquestionável loucura.

Há dois mundos possíveis de compreender porquanto sejam tangíveis, compreensíveis e um deles chamamos de estágio. O primeiro é este mundo - que nos recebe ao nascer, nos acolhe, no qual evoluimos como seres humanos ou apenas nos desatinos tipico dos seres brutais; que nos alimenta e que nos cobre com sua espessa camada de terra quando o nosso sistema vital entra em falência. O outro é exatamente a Morte, dai chamar este mundo de estágio, para minimizar a linguagem daqeles que têm ouvidos mais sensíveis ou para apaziguar a inteligência e o caráter dos que querem chegar até Deus, mas não querem morrer. É o grande anacronismo, um contra-senso, mas também um fato real: viver a vida dos cinco sentidos, a plenitude dos prazeres e das riquezas emuladoras desses quase infindáveis prazeres (e também de incontáveis vícios) e temer - oh, sim, temer - aquilo que virá depois que houver a falência vital e for necessário, sem qualquer escolha ou apelação, abandonar tudo que se juntou de bens, de virtudes, de vícios, e encarar o outro lado tão nu, tão despojado, tão sozinho como quando saiu do ventre corporal de uma mulher, que se convencionou chamar de mãe.

Perscrutar sobre se há ou não vida em outros mundos é um exercício inconcluso, para muitos contraproducente, que serve para alimentar a imaginação dos escritores, dos cientistas e dos moralistas, mas apenas é um exercício sem um final oficialmente aceito.

É presunção imaginar o nosso pequeno grão de areia cósmica coo único grão com vida inteligente? Eu digo que é, contudo não vou resolver as intermináveis divergências doutrinárias das igrejas, não poria fim à fome nem à injustiça, não extirparia o espírito totalitário e ditatorial do ser humano, nem acabaria com as dicotomias conflituosas de religiões, nem com a ganância, a prepotência do racismo, a insanidade do crime contra a vida alheia, nem com o crime contra a nossa própria vida se entendermos que os vícios, o suicídio lento dos maus procedimentos diários, os apetites desenfreados dos modismo contemporâneos, tudo isso é uma sutil e devastadora forma de auto-aniquilamento.

Não acabaria e, diante do argumento hipócrita e cínico dos insubmissos, me revoltaria quando dissessem que "se vamos morrer mesmo, temos mais é que aproveitar a vida", que só confirmaria a avançada evolução da devassidão que domina este mundo, mesmo que todos vejam, mas aceitem; todos condenem, mas condescendam; todos reprovem, mas fechem os olhos e virem os rostos para o outro lado. Até porque é mais fácil fingir que não se vê, que não se ouve, que não se saiba. Legítimo porque é contemplado com o mérito da dúvida; é lícito porque estar absorto e distraído concede-lhe o direito ao perdão, mas absolutamente imoral sob o ponto de vista de consciência.

Certa ocasião, há algum tempo, e não saberia precisar a data, en passant pelo canal Multishow, me deparei com um bate-papo entre apresentadoras, e na ocasião elas discutiam a conduta de certos políticos e sua forma elástica de encarar a moralidade institucional que justificasse as suas próprias condutas no poder público. A certo momento uma das apresentadoras, a atriz Betty Lago saiu-se com uma pérola de observação que, àqueles tais ouvidos sensíveis, soaria como uma frase de mau gosto, mas que refletia o mais puro e sincero desabafo, quando disse que eles poderiam fazer o que bem quisessem, mas que "um dia, com certeza, acabariam morrendo de câncer", o que provocou risos de todas as presentes, mas que me fez pensar seriamente no seu conteúdo.

Não o câncer doença, que todos temem mas que é um fato inequívoco. Mas o câncer doença acaba sendo uma metáfora real e tangível quando entendermos que, se a justiça humana não consegue alcançá-los para puni-los pelos seus excessos e desvirtuamentos, a doença, como um aliado silencioso dentro do próprio personagem, serviria de fiel da balança para pô-los no lugar que mereceriam estar.

Inevitavelmente a doença é um efeito própria dos desvios e excessos, e ele habita nossas entranhas e se manifesta quando o terreno se torna propício. A verdade é que também há um outro mundo bastante subjetivo, além deste - material -, da Morte - fase terminal -, mas também aquele que acompanha entre um e outro: o mundo da consciência. Onde residem os planos, as idéias, onde se faz o balanço do certo e do errado, do crime e do castigo, aquele mundo onde nem o dinheiro, nem as bebedeiras, nem as drogas eliminarão a "insustentával leveza do ser".

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Seguir em frente... até quando?

Porque a vida do quotidiano absorve-nos completamente, deixamos, muitas vezes, ou quase sempre, de pensar essencialidades que dariam um novo rumo às nossas vidas. A grande desculpa, a palavra-chave, a senha de acesso a toda essa mistureba que é a vida moderna se resume em estou sem tempo, como se isso fosse a desculpa padrão que nos permite ter uma boa noite de sono, a consciência limpa, poder olhar para aqueles que amamos sem sentimentos de culpa ou remorsos inquietantes. A mínima noção de religiosidade também é uma boa solução para aqueles que vivem se desculpando de tudo que fazem, como se a desculpa fosse uma fórmula mágica que os isentasse de toda e qualquer responsabilidade.
Esse negócio de estou sem tempo já produziu inúmeros momentos reflexivos em homens e mulheres bem sucedidos que, a despeito de serem pessoas de relativo sucesso em suas profissões e carreiras, viram esboroar a sua vida pessoal simplesmente porque no afã de chegarem lá, esqueceram-se de detalhes importantes e simples, e o mais cruel dessa tomada de consciência é que retroagir é uma ação proibida, não por falta de vontade ou de arrependimento, mas porque a vida, por si só, não dá marcha à ré, não anda para trás; a essência da vida é ato continuo, incessante, irrevogável. Daí porque não poucos são tremendo sucesso nas suas atividades e paradoxalmente vivem a recolher os cacos de suas tragédias intimas.
Chegar lá, ir em frente, são formas baratas de expressar a evidente questão que nos foi colocada quando chegamos a este mundo. A inclusão de pequenos detalhes de somenos importância como lidar com amigos distantes que há não vemos, ficar noites insones para implementar o projeto de nossas vidas – mas que depende do aval deste ou daquele – e a incontrolável insaciedade por devorar tudo que vem às mãos, sejam com os olhos, com a boca, com as mãos – a eterna questão do ter, do possuir – evidencia que a intranqüilidade do ser humano, e o conseqüente sofrimento moral e físico por que passa tanta gente, é que a idéia de posse tira a paz e a tranqüilidade de quem quer que seja.
Cercamo-nos de conceitos que nos venderam. Herdamos idéias que não damos a devida valorização porque não pesamos as suas conseqüências. Simplesmente adotamos certos dogmas, conceitos, filosofias, ideologias porque fazem parte da cultura geral deste ou daquele povo. E quando o tal estalo acontece, num certo instante de nossas vidas, a sensação que saboreamos nem sempre é doce, nem sempre é agradável. Muitas e muitas vezes o gosto é amargo e a impressão que se gruda ao nosso espírito é de que falhamos por inoperante preguiça de decidir por um não convicto, e porque, por covardia contumaz, adotamos o sim por causa da maioria da qual sempre fizemos parte.
Por que não nos escandalizamos por conta dos escândalos que ofendem a nossa inteligência e a nossa sensibilidade? Por que é bem mais fácil concordar e aceder à pressão corporativa de certas minorias que têm o poder, alegando que não temos instrumentos legais para combater a ignomínia? Por que concordamos em avalizar a conduta mesquinha dos maus que dizem governar, aceitando sua improbidade como regra, porque julgamos que, antes mesmo de começar a luta, vemos a derrota estampada nos jornais e os dedos sendo apontados contra nós a dizer-nos: Quem vocês pensam que são? Não sabem como quem estão falando?
Acredito, ou tenho pensando muito a respeito, que o sofrimento humano prende-se umbilicalmente às incontáveis inutilidades que juntamos no curso de uma existência.
Aparentemente podem dizer que livros, CDs, DVDs, dinheiro, propriedades, títulos nobiliárquicos, cargos públicos, profissões sejam inutilidades. De certo muitas horas de renuncia e abnegados esforços ao longo da vida foram para construir um bom nome e uma honra impoluta. De certo que a dedicação nas pesquisas dos cientistas, a dedicação altruística de médicos e enfermeiros foram únicas com o objetivo de salvar vidas e minimizar padecimentos físicos. Não pretendo dizer que todo e qualquer esforço foi inútil; mas deixam de ser importantes porque temos a finitude do corpo, e juntar honrarias ligadas a um nome tradicional ou porque se fez algo em favor de muitos não significa que mereçamos privilégios aos olhos dos homens, até porque isso não é mérito humano – é consciência moral e gesto amoroso do homem pelo que entende de solidariedade e amor ao ser humano.
Mas tudo isso acaba ficando para trás. As honrarias, o poder, as riquezas, o bom nome, as glórias, os elogios, as festas, as recepções, o brilho hipnótico de sentir-se finalmente nas alturas da pirâmide social, tudo cessa, tudo tem um termo de interrupção no instante seguinte em que a ciência declara que este corpo teve morte cerebral.
O corpo, a máquina, o receptáculo, a materialidade cessou. Não há que se reivindicar que tenha que levar isto ou aquilo. Viemos sem, voltamos sem. Às vezes até voltaremos com mais problemas, teremos amealhado maior número de irresponsabilidades, ainda que entronizados em cargos renomados e granjeando uma notoriedade duvidosa. Além dessa justiça que conhecemos cambiante e claudicante em muitas ocasiões, existirá uma outra que, sem criar cláusulas especiais nem leis imediatistas que tentem remendar o buraco dessa colcha mal alinhavada que é a “boa intenção humana”, essa justiça que está além dará a todos, sem exceção, a chance de consertar com dignidade tudo aquilo que desmancharam à época em que poderiam ter agido diferentemente, e com mais propriedade.
Talvez ai se explique o sentido metafísico do sofrimento presente de pessoas aparentemente despojadas de culpas. Talvez se explique porque muitos padecem, sem que tenham produzido nesta vida um só gesto capaz de justificar tanta dor. Mas terão os nossos olhos a visão inteira e completa do todo? Permitiríamos que nossas bocas blasfemassem contra a divina decisão de aplicar a justiça, alegando parcialidade e ignorância? Mais que blasfemar contra o que é perfeito é deixar de entender que o perfeito transcende a lógica humana; e que é graças a essa transcendência podemos repousar nossas esperanças em dias melhores.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O titulo que atrapalha

Leio na Internet que os argentinos estão questionando a divindade do seu “deus” Maradona, e isso, de alguma maneira que leva a refletir sobre o que se passa na cabeça dos homens nos dias de hoje.
Falamos de um homem que, tempos atrás, foi divinizado pelo fanatismo futebolístico argentino. Aquele que se dizia maior e melhor que todos, inclusive do Atleta do Século – Pelé – hoje, na condição de técnico da seleção nacional, se vê em papos de aranha perdendo de todo mundo e correndo o risco, o que é pior, de ficar fora da Copa de 2010.
Claro, estamos falando de futebol, de um ex-jogador, de um sujeito falastrão que depois que abandonou o ofício virou manchete pelas suas fraquezas com drogas e uma vida muito atribulada. Mas em que pese toda sorte de crítica, não se pode negar que foi um jogador talentoso e que granjeou fama, riqueza e prestígio.
Mas os tempos mudaram. São outros tempos. Hoje a notícia foca exatamente aquilo que não acontece de bom. No caso, a situação dramática da equipe portenha na iminência de naufragar e não desembarcar na África do Sul.
Então os argentinos passaram a ter dúvidas quanto ao deus que idolatram. Mas, de que deus nós estamos a falar? O deus Maradona? Até onde sabemos sempre foram os brasileiros classificados como místicos e voltados à fé religiosa e ao sobrenatural. Os “hermanos” mais ao sul, ao contrário, sempre foram considerados o último país europeu encravado na América. E de repente, por causa de insucessos dentro das quatro linhas, passaram a duvidar do poder e do potencial do seu deus?
Na verdade não há nem nunca houve um deus Maradona. O que sempre existiu foi apenas um homem comum que acertou algumas vezes e errou outras tantas. Também nunca houve um deus Pelé – nenhum brasileiro, por mais fanático que fosse, chegaria a essa atitude, digamos, sacrílega. Pelé foi Pelé, hábil, virtuoso, competente, vencedor na sua arte e um homem também sujeito a erros e acertos. Como ele houveram outros, que o antecedeu. E por que, em sã consciência, os argentinos haveriam de imaginar que Maradona é um deus? Baseados em sua falta de visão de futuro? Talvez, considerando-se que um deus, por mais segunda linha que seja, jamais cometeria os erros que ele vem cometendo. E também porque um país que carece de heróis tem que, desesperadamente, inventar métodos capazes de compensar essa carência; e o que é que faz o bom marketing? Inventa um deus; e esse deus, por uma falha inexplicável, não teve a percepção de enxergar que o contra-ataque brasileiro seria (como foi) mortal. E que dizer das bolas na trave portenha contra o Paraguai, nessa quarta-feira? Teriam sido as mãos invisíveis do deus Maradona que impediram que a derrota não fosse uma goleada? Ou foi apenas a boa sorte?
Não importa o que poderia ter ou não acontecido. Na análise capenga deste cronista o que existe de fato, de concreto, é a absoluta consciência humana de que nem Hitler resolveu o problema da Alemanha a lhe prometer um Reich de Mil anos, nem o deus Maradona poderá salvar o selecionado argentino, porque tanto um quanto o outro, e respeitadas as diferenças cronológicas e históricas, são personagens do teatro humano e da comédia de erros que essas personagens desempenham no curso desse momento chamado vida.
A Argentina poderá ir à Copa como não ir. Qualquer selecionado é candidato potencial ao título – uns por tradição e por um currículo invejável, outros porque estão evoluindo e também têm todas as chances de ganhar o caneco –, mas ninguém, em seu juízo normal, seria campeão porque o seu técnico ou o seu dirigente de federação tem o título presunçoso e absurdo de deus.
Nada contra os hermanos argentinos, mas um pouco menos seria já o primeiro passo para que resista a chama da esperança que poderá levá-los à Copa de 2010.
Nem Mandela, nos seus vinte e sete anos de prisão, depois de liberto recebeu honraria tão detestável, e é bom que se diga que Nelson Mandela ficou preso por defender os direitos e a liberdade do seu povo, algo bem mais honroso e digno daquele que o técnico da seleção argentina ousou fazer.
Está na hora de a Argentina repensar melhor os seus conceitos de divindade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ouço alguém dizer

Ouço alguém dizer que não há nada mais a fazer, e fico perplexo. Lembro-me de que Hemingway, no auge do seu desespero como escritor, concluíra a mesma coisa em relação à literatura, e por outros motivos prováveis meteu-se uma bala de espingarda na cabeça. O que ouço não me cai como algo plausível. Deveria eu pensar pessimistamente acerca das coisas dos outros, das relações humanas, dos resultados políticos como se o mundo houvesse sofrido uma descarga de estupidez, como se a humanidade tivesse sido criada à imagem e semelhança de um gênio de caráter duvidoso. Não cogito ficar discutindo os conceitos misteriosos da criação divina, nem questiono a existência ou não de Deus. O que me induz a refletir sobre a vida e suas conseqüências são as pessoas e suas mentalidades. Os sistemas, as regras, as atitudes, a educação formal, o que leva a pessoa a matar e morrer, o que faz uma nação ser nação e outra apenas um país de explorados, sem identidade e sem perspectivas, tudo resulta da capacidade intelectual do tecnicamente humano implementar. O nosso mundo, este que vemos e tocamos, este que defendemos e destruímos, este de quem falamos e várias outras vezes ignoramos, este mundo mensurável, tangível, finito é o mesmo planeta azul que desejamos definitivamente preservar – se para tanto há consciência de preservação – e em outras ocasiões a nossa fúria egoística seria capaz de acionar o botão e fazê-lo virar pó.
Ouço alguém falar de coisas absolutamente inexplicáveis, de como se conseguiu produzir tanta mixórdia e tantas infelicidades. Então a questão não é porque há desorganização social ou porque a justiça é ou não cumprida. O fator de análise é o homem, o ser humano e suas imprevisíveis reações. O que faz a diferença, na realidade, é viver o livre-arbítrio – um conceito avançado de decisão que separa o homem do bicho – e que prenuncia aquele brilho que tornará o homem um herdeiro automático do Criador. Como foi o surgimento, como e quando ocorreu a gênese, se eram iguais ou diferentes não se poderá dizer que seja possível explicar e mesmo entender. O filósofo é o que vai atrás de uma resposta e não se contenta com esquivas, nem em ficar com a dúvida e morrer com ela. Tudo tem uma explicação; e a inquietação filosófica é o traço marcante de que o gesto inicial de criação partiu de uma sabedoria que transcende a nossa própria inteligência. Questionar o inquestionável – não por menor razão alguns pensadores geniais chegaram a abraçar involuntariamente a loucura, que os engoliu – acaba sendo a função do filósofo, ainda que a ciência esquadrinhe todo o tempo e o tempo todo para provar que o somos significa um estágio anterior que fomos, e se fomos algo anterior, hoje somos e aconteceu não por acaso nem por acidente, mas por meios e métodos que nada mais são do que questões cientificas comprováveis.
Não é preciso ficar macambúzio cogitando coisas alienantes e incompreensíveis, como se fosse caso de vida ou morte avaliar o peso do ar, as cores dos olhos do caracol, a mutabilidade das nuvens nos céus, a direção imprecisa e improvável das folhas ao vento, pois que de tudo isso poderemos depreender que tudo está sobre uma linha reta e nada lhe foge ao controle. Aqui me faço lembrar um poema de Alberto Caeiro quando diz: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo, e amo-a por isso, porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe porque ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, e a única inocência é não pensar...”
Tamanha propriedade só poderia ser descrita por um poeta sensível e questionador, que se fingia poeta para se demonstrar um filósofo a filosofar, ainda que dissesse que a eterna inocência é não pensar ele próprio não cessava, jamais, de fazê-lo. O escritor pensa, o filósofo pensa, a criança apenas pensa nas coisas que lhe apraz exclusivamente. De resto, quanto menos se pensar melhor. Mas não pensar significa alienar-se; e viver alienado não é o ponto ideal da pessoa, mas uma forma de excluir-se. E o que é o mundo, afinal, senão um amontoado de gente que busca desesperadamente ser aceita, fazendo uso de todos os recursos necessários para que suas ações sejam admitidas e aprovadas. Talvez, então, se explique porque Hemingway matou-se; o seu desespero não era causa, mas efeito de um transtorno de interpretação diante do mundo que o circundava. E tão perplexo era que não pensou duas vezes até estourar os miolos. Porque não via mais nada que realmente valesse à pena. Se tivesse pensado com método, e não se deixasse envolver pelos seus próprios pensamentos perturbados, talvez tivesse conseguido evitar a atitude absurda do suicídio, porque se havia algum problema insolúvel por desvendar, pondo fim à vida ela apenas abreviou a solução transferindo-a para um tempo futuro que somente a ele pertence.
Ouço alguém dizer que nada mais de original de escreveu ou se disse, que os gregos já não tenham escrito ou dito. Mas isso é tão implausível! Séculos indevassáveis separam-nos daqueles tempos. O que talvez não tenha mudado são os sentimentos e os sentidos humanos, estes cada vez mais arraigados aos homens porque são o cerne de todas as questões e respostas de todas as perguntas. Ainda muito se escreverá e se falará. O homem ouvirá sempre alguém a dizer isto ou aquilo, ou simplesmente ignorará o que se diz apenas por comodismo ou porque não queira padecer dores transferíveis. Eu disse dores transferíveis? Mas o que eu quis dizer, afinal? Aquelas dores que postergamos para outro tempo, quando estivermos prontos para entendê-las? E quando é que entenderemos, de fato, sobre as nossas dores?Ouço alguém dizer que isto ainda não acabou...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Esquecidos

Dura realidade aquela quando deixamos de ser lembrados! Literalmente se diz, com alegre desconcerto e jocosidade, que fomos esquecidos. Ah, dura realidade, dura vida! Mas quantos não são esquecidos, e nem por isso deixam de ser importantes.
Alguém lembra o primeiro beijo recebido na infância? Ou a primeira puxa de orelhas, quando se atreveu a baixar a cabeça para ver o que havia debaixo daquela saia (ou era um vestido?) que nem se sabe quem vestia?
O primeiro bicho de estimação, a primeira queda quando brincava... Essas coisas passaram e ninguém (ou quase ninguém) mais lembra, exceto aqueles seres iluminados com memória vertiginosa, mas que não lembram o que comeram ontem. Tudo é possível neste mundo de Deus.
A primeiro comunhão, as aulas de catecismo, aqueles catecismos proibidos que circulavam paralelamente, de mão em mão, provocando ufas e uaus intermitentes, naqueles tempos antiguissimos que a mera gravura desenhada supria as necessidades fisiológicas daquela geração de hábeis manipuladores. Alguém se lembra das caras e dos rubores?
Da primeira professora, enfezada e parcial - um prenúncio cruel do que seria o mundo adulto do futuro -, ou aquela de pernas torneadas e deliciosamente sugestivas, a alimentar as imaginações e a pôr em prática a criatividade da classe. Como se chamava ela mesmo? Nilza? Nilda? Neusa? Antipática, sim; mas muito gostosa, sim também.
Contudo tudo faz parte dessa coisa de "agora me deu um estalo e eu me lembrei" que circunda o nosso segundo mundo mental: o que vige e o que se aposentou. Ambos reunidos dão o tom e o colorido desta realidade em que muitos acabam esquecidos por pura questão de marketing.
Acho que ao terminar este texto eu me lembre que esqueci de algo que era imprescindível e fundamental. Porém eu terei a vantagem de dar uma continuidade fazendo acontecer o "Esquecidos 2" como se fosse um roteiro de um filme curto, mas essencial ao que lembra, pensa e escreve - no caso específico, eu mesmo.
Assim, vamos deixar que as lembranças aflorem como aves de arribação, que voltem às suas origens ou, que na melhor das hipóteses, retornem de onde vieram. Nisso reside a capacidade de ir e vir, viagens infindáveis, algumas boas, alegres, outras tristes, lamentáveis.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A falha

Existe desde os primórdios da consciência humana. Quem é que não falhou na vida? Quando se estabeleceu a meta, calculou-se o objetivo e visualizou-se o resultado, e no final, quando tudo parecia inevitavelmente certo eis que acontece um imprevisto, um fato novo, algo que não estava programado, e tudo vai por água abaixo.
A falha humana, o erro de cálculo, a decepção depois de avaliar as consequências do inesperado. Não tem sensação mais desagradável que a falha, a derrota ainda que momentânea mas bastante forte para causar um impacto destruidor. Um soco na boca do estomago. A certeza de que todo o esforço envidado se perdeu, foi em vão.
Mas a falha também nos mostra quão imperfeitos somos, principalmente àquelas pessoas que fazem com que suas vidas sejam pautadas apenas por ações notáveis, perfeitas, intocáveis. No alto da sua superestimada avaliação pessoal elas se consideram maravilhosamente competentes. O mundo feito por Deus é imperfeito, elas - criaturas de Deus - muito pelo contrário. Contudo o fracasso também faz parte do jogo, da investida que diariamente praticamos em direção ao fim comum. A vida, em si, é uma longa caminhada que tem início e fim estabelecidos; não por nós, mas por um conjunto de leis que extrapolam a nossa compreensão.
A falha humana é um erro do qual precisamos tirar proveito e aprender com ele. Todo erro é factível, não ser humano infalível - nem mesmo o Papa, ainda que a súmula da Igreja Romana diga o contrário. Esse detalhe é discutível e podemos desenvolver, a seu tempo, uma reflexão sobre ele, mas que exigirá um outro momento.
Para agora, o melhor a fazer é refletir sobre a falha não genérica nem impessoal, não discutir sobre os desvios de percurso disto ou daquilo, mas falar sobre a falha que convive conosco no cotidiano, a palavra inadequada, o gesto apressado e impensado, o olhar de censura, a perda de controle de uma situação, um encontro que se faz e que poderia ser evitado ou, melhor, um encontro que se podia evitar e que por presunção ou teimosia acaba acontecendo com reflexos nada favoráveis. Tudo isso é um aspecto abrangente da falha, da falta de atenção, da iniciativa precipitada e desastrosa que poderia ser evitada.
Falhar qualquer um falha. Do mais anônimo cidadão á mais expressiva autoridade, ela não discute o caráter hierárquico, até porque está incrustada na condição humana e na sua capacidade de tomar decisões que podem resultar em sucessos ou fracassos. São essas decisões que atormentam a alma do ser humano. Quantas não foram as vezes que se pretendeu transferir esse momento crucial para outra ocasião? O medo gera a insegurança, que gera a inquietação, o suor profuso, a ansiedade, as pupilas dilatadas e a sensação de que o tempo se congelou. É o medo de que não dê certo, logo, medo de falhar.
É da natureza humana assumir posições, opiniões, pertencer a um grupo, ser aceitou ou repelido, mas com a agravante de que temos a consciência disso. O animal em bando acaba sendo apenas um membro biológico daquele grupo, baseado no seu instinto e não em considerações racionais e filosóficas. Nós, muito pelo contrário, agimos de forma deliberada e consciente. Às vezes não muito consciente, mas com a presumida suspeita de que poderemos estar agindo sem saber ao certo se os resultados consequentes serão bons ou ruins. Mas temos a certeza palpável de que poderão ser bons ou ruins.
A falha é, em algumas ocasiões, fatal e irrecorrível. A falha numa mesa cirúrgica pode representar a vida ou a morte. A falha num cálculo numa espaçonave pode acarretar o sucesso da empreitada ou o fracasso trágico.
Falha é sinônimo de fracasso, de desprestígio, de perda de status, uma nódoa curricular, um olhar mais prolongado de censurada por esta ou aquela comunidade, o passaporte do fracasso profissional e outras sequelas prováveis. A pior das falhas é aquela que não se pode rever e consertar. Aquela que deixará marcas para o resto de nossas vidas. A nossa sociedade tem vivido entre as faixas mensuráveis entre a falha presumida e a falha deliberada. E essa aspecto cruel podemos observar amiúde na composição da célula chamada família onde o ato falho é um eufemismo para riscos previsíveis e evitáveis que, ainda assim, são produzidos às pencas pelas atitudes nem sempre responsáveis das pessoas.
Não há falha mais dolorosa e triste que a familiar, aquela que só vamos perceber quando os fatos acumulados por décadas não têm como ser retroagidos e alterados. A maturidade humana traz a sabedoria, mas até que se chegue a esse nível satisfatório de lucidez muitas coisas que poderiam ser trocadas por outras deixam de acontecer. E muitos não chegarão à maturidade para refletir sobre os erros e acertos cometidos.
Mas fiquemos por enquanto neste ponto. Falemos sobre outros aspectos por conta de ser um tema extenso, complexo e repleto de alternativas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Para tudo há uma explicação

Nada acontece por acaso. Todo fato tem sua conseqüência, e todo gesto irresponsável é passível de juízo.
O que acontece hoje conosco, como país e como povo, não é casual nem um deslize caprichoso de alguma divindade. Há os que crêem em Deus, outros em deuses. Há os que crêem em dinheiro e poder e em nenhuma restrição moral, desde que não magoem os seus sentimentos, nem os melindrem.
Mas de modo geral, se atentarmos bem para o que acontece – e os noticiários diários são unânimes em render longas laudas explicativas ao assunto –, veremos que um fedor muito grande se propaga rapidamente para todos os lados. O mau cheiro é insidioso, ofensivo, incomodo e desconfortável. Não que necessariamente haja corpos mortos espalhados pelo país; não, não há de um jeito explícito; há, porém, no aspecto retórico da palavra. Uma metáfora que ganha corpo e se recrudesce dia após dia.
O Senado é a casa que detém poder. A ele recaem várias atribuições, onde algumas se destacam e têm peso. Compete a ele julgar o chefe-maior, o vice, ministros de estado, comandantes das Forças Armadas, membros do Conselho de Justiça; cabe-lhe escolher Ministros de Tribunais de Contas indicados pela Presidência, diretores do Banco Central, Procuradores Gerais da República; ele autoriza operações financeiras externas e internas, dos Estados, Territórios, do Distrito Federal; estabelecer limites da Presidência, dispor de limites globais, eleger Conselhos da República, avaliar o funcionamento do Sistema Tributário Nacional e daí vai.
Como se vê, o Senado tem muito poder. Poder de decidir, de incidir, de atuar, de destoar, de fazer e desfazer. E esse mesmo local de tanta concentração de poder fede. Fede muito. E não bastasse o fedor que exala, ainda tem a capacidade de gerar lucidez dentro de alguns de seus membros que, cambiantes e enxovalhados, com um mínimo de decoro e pudor, vêm a público e declaram que a casa está ruindo. Que lhe falta credibilidade. Que a orgia inicia a sua trajetória descendente.
O senador Pedro Simon, um dos últimos baluartes da decência, declara em alto e bom som, que tem vergonha de voltar a Porto Alegre (sua cidade). Vergonha? Por isso é que se pode dizer da sua conduta decente: ele ainda tem vergonha. A mesma que conduz o infausto condenado a subir os degraus do cadafalso e a arrepender-se dos pecados cometidos em outros tempos – quando ainda era um mero mortal suscetível de erros e de fraquezas. A mesma vergonha que teria que nortear a vida política dos senhores legisladores e que, contudo, passa ao largo e se escarafuncha em lamaçais contíguos às suntuosas instalações de seus gabinetes providos de ar condicionado, de um número quase inverossímil de servidores, toda essa opulência gastadora e perdulária custeada pelo sacrifício absurdamente alto de toda uma nação anônima que vive à margem, que é convidada por força e por imposição a participar desse festim, deixando de ter saúde decente para sustentar os maravilhosos serviços médicos que esses representantes, e seus familiares, desfrutam; deixando de ter transporte digno para bancar, dura e irrevogavelmente, os carros oficiais e os fretes particulares de suas excelências, porque eles são, de fato, seres iluminados e detentores do privilégio de viverem além da vida e da morte. Mas nem por isso deixam de exalar esse fedor horrível que sufoca e faz-nos engasgar.
Que se remexa no fundo das gavetas de suas vidas “impolutas”, e não se poderá garantir que as mãos venham do mesmo jeito que entraram. Ou que do fundo dessas gavetas mal arejadas haja algum tipo de vida que não seja aquela que se compraz com o ranço e o bolor, com manchas tão arraigadas às paredes internas dessas gavetas insuspeitas, que mesmo o mais forte dos alvejantes é incapaz de tornar as paredes das gavetas como eram originalmente.
Assim é o coração, assim é a alma, assim é a hipocrisia e o som rascante e dúbio de suas vozes nas tribunas a imiscuírem-se das responsabilidades, mas pressurosos em encontrar explicações e justificativas para isentarem-se de quaisquer culpas. Mercê a pressão da consciência, essa a única que fará efetivamente o papel de juiz, nada se lhe poderia obrigar a renderem-se aos fatos e àquela admissão honrosa de erros cometidos e de um arrependimento honesto. Antes, o mau cheiro decorre da putrefação da própria desfaçatez com que se conduzem, aureolados por honrarias que não lhes conferem mérito, drapejados por galardões que maculam o espírito do prêmio, e que faz com que o verdadeiro herói seja sempre aquele anônimo que se deu em prol da causa e do valor justo. Não terá sido diferente a reação dos fariseus aparvalhados, quando se deram conta, naquele momento, de que aquele que expirava no Gólgota era, de fato, o Filho do Deus que eles diziam acreditar, mas que repeliram sistematicamente por medo e por arrogância, por orgulho e por preconceito.
Até onde possa se compreender o que são, os políticos mostram-se tão distantes e diáfanos à realidade circundante, como se fossem, repito, seres iluminados e designados por alguma divindade caprichosa e parcial.
Por que os privilégios de ficaram acima da lei e da ordem?
Por que serem blindados por regras que servem para protegê-los de suas cafajestadas, e que ao povo resta apenas acreditar no sobrenatural e na intervenção divina tardia?
Qual, realmente, o espírito da Justiça? Onde cabe o direito do que governa e do que é governado?
As nossas ruas e avenidas já não têm a segurança e o frescor dos tempos de nossos avós. E quando um senador diz que “Getúlio saiu da vida para entrar para a História; e que Lula saiu da História para entrar para a vida”, ele diz que não há mais a mística de que o homem público seja digno representante de uma nacionalidade. Antes, ele – homem público –, se transmudou numa figura patética sem escopo moral e sem dignidade. Os seus interesses pessoais e íntimos cauterizaram-lhe a clareza do raciocínio e tornaram-no em apenas um espectro de algo que ganhou forma e tomou gosto pela opulência, pelo poder, pelo estar acima de qualquer julgamento, das carteiradas do “sabe com quem está falando?”, e o completo distanciamento dessa arraia-miúda que, assim como no longínquo 1789, se ergueu e tombou a Bastilha, incitada por vozes de comando que apenas confirmavam o que suas opacas vidas traduziam em miséria, ostracismo, repulsa por parte da realeza que os governava.
Caía o absolutismo e seu alheamento às coisas chãs para dar lugar aos revolucionários que fariam com que as coisas voltassem a ter sentido.
Como a semeadura fora feita, era imprescindível que a colheita fosse levada a cabo. Liberdade, Fraternidade e Igualdade eram as razões pelas quais o povo erguia sua voz e clamava um “Nós estamos vivos!”.
Certamente que para tudo há uma explicação. E se de um lado havia uma consciência política de que apenas um tem o direito ao poder absoluto, expurgando-se o feudalismo e o direito aos privilégios herdados por nascença, todo sentido passava a existir ao se execrar das mentes a idéia de isolamento que aquela realeza utilizara, dando lugar à busca (realmente difícil, quase utópica) de uma igualdade de direitos.
Nada mais claro e evidente do que acontece nos rincões das Terras de Santa Cruz – este Brasil, cuja designação se atribui, de forma simplista, ao pau-brasil –, mas que tem origem ainda mais profunda, podendo ser eco das entranhas celtas como das fenícias. Quantos feudos ainda resistem? Quantas fortalezas à semelhança da Bastille se negam a pisar o verdadeiro chão?
Não sem razão o fedor cresce, porque a volúpia excedeu-se a si mesma. Tomar o governo e coroar-se governante não é suficiente. Querem mais. Extrapolam e usam os atributos para tornar fáceis todas as coisas que teriam que ser garimpadas à força de suor, lágrimas e cansaço. Os caminhos facilitados geram a corrupção, o tráfico de influencia, a transação de favores, desde que se cumpra o dito de que “uma mão lava a outra”, distorcendo o sentido dos ditados, incorporando sentido dúbio e questionável às tarefas mais modestas, e o que era para ser exemplar e pleno de virtudes se mostra tenebrosamente cruel, injusto e faccioso.
Os fatos da vida estabelecem a sabedoria, que de humanidade se reveste e se perpetua. Assim como os filósofos, que pensam e concebem teorias e idéias, tanto mais o homem que é ser pensante também concebe conceitos e vive acreditando neles, morre por eles, equivoca-se por eles.
Disse Rousseau:
“O primeiro que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer: "Isto é meu", e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdido se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém"
Sim, para tudo há uma explicação. Às vezes não muito clara, nem tão óbvia, mas o tempo, esse senhor de pertinaz eficiência e perseverança imorredoura, cumprirá os seus desígnios, e nada será tão inevitável quando isso.