sábado, 13 de fevereiro de 2010

Uma visita e algumas reflexões

Não é fácil chegar quase aos sessenta. Por razões que só a nós, quase-sessentões, dizem respeito, chegamos àquele ponto crucial da vida em que as reflexões, por insistência e por motivos óbvios, passam a compartilhar o nosso espaço e os nossos momentos que anteriormente eram ocupados apenas pelos nossos pensamentos. Aliás as reflexões são uma espécie de pensamentos que passaram do ponto, ou que amadureceram. Não só os homens ficam velhos; os pensamentos, as ideias também envelhecem, não no sentido de ficarem desatualizadas, mas elas acompanham a nós como uma silenciosa solidariedade. Sem querer elas seguem o mesmo curso, paralelamente, respeitando nossos espaços e nos instantes de solidão.

Por que digo tudo isso? Talvez porque eu veja nos amigos aquilo em que me tornei. Nós éramos pessoas diferentes; éramos jovens e esbanjávamos saúde, vitalidade, certa irresponsabilidade permitida (porque éramos também parte de uma geração que agia irresponsavelmente atrás de uma causa justa); tinhamos o mundo à nossa frente e sabiamos (ou não) que ele poderia ser explorado à exaustão. Viviamos as ilusões e as fantasias da nossa época. Nós estávamos há trinta e poucos anos dessa explosão globalizadora de aglutinar o mundo dentro de uma telinha de computador e nos sites de relacionamentos. Nós escreviamos cartas, faziamos poesia e música, e muitos - ou a grande maioria - andava de cabelos longos como forma de rebeldia, não havia modismo nisso, era pura rebeldia, uma maneira pacífica de dizer ao mundo (adulto) que nós também tinhamas coisas a dizer e a fazer.

O tempo (inexorável) passou; e nessa passagem deixou marcas profundas e muitos de nós. Os espelhos refletem sem quaisquer artifícios que "aqueles" moços ficaram lá no passado, são parte da História, congelados e imutavelmente incapazes de sofrer qualquer tipo de assédio do Tempo.

Tudo isso porque eu me vi no amigo que visitei. Ele me apresentava às pessoas à sua volta com o "colegão", e eu me via em cada gesto dele. Ali, limitado a uma cama de hospital, sendo obrigado a ficar preso às determinações de uma autoridade médica, e por motivos mais do que justos, estávamos, por assim dizer, cada qual de um lado do muro. Ele, lutando contra um tratamento longo e desgastante; eu, a visitá-lo como alguém que ainda não foi afligido por algum tipo de mal que o curso dos anos traz.

Bem humorados nós estávamos. Era (e é) preciso levar a coisa com bom humor. No fundo a ideia é apenas superar os problemas nessa grande equação matemática onde vida, experiência, vitórias e decepções se igualam a uma variável a ser calculada, tomando-se por base uma informação básica em que ela não é maior nem igual a absolutamente nada. Sempre haverá um resultado que torne essa equação factível e verdadeira.

O Zé está bem. Um pouco combalido e onze quilos mais magro. Dos três mosqueteiros que éramos, posso dizer que sou Porthos - alguns quilos mais pesado, tentando chegar na velhice profunda com um corpo menos denso e mais flexível.

A Irani, sua esposa, estava lá, e uma prima que chegou depois. Ficamos ali numa tertúlia agradável, trocando figurinhas, o Zé sem jamais perder o gosto refinado de contar histórias, e eu ali a prestar atenção e a pensar que aquilo, excetuando a situação dolorosa da doença, sempre foi assim: nós três numa rodinha a contar episódios, porque a nossa vida era apenas um rascunho do que viria algumas décadas depois.

O Zé está bem. Vai ficar bem. A gente ficou um bom par de anos sem se ver. Mas é como se nunca tivemos deixado de nos visitar nesses últimos trinta e poucos anos.

Voltei animado. Uma sábado de verão ensolarado, quente, acreditando que logo mais ele estará em sua casa convalescendo e pronto para retomar sua vida.


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