quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Velhos camaradas

Não faz muito tempo eu podia ver pessoas e ouvi-las, eram possíveis de serem tocadas, mas não atinava com o fato de que elas, assim como eu, passariam um dia para o outro lado da história, e seriam o ontem, o passado, o que já foi. Velhos camaradas de turma, sob as mesmas pressões e anseios, vislumbrando até de forma tacanha e tímida o horizonte muito além da própria imaginação, e mesmo assim éramos um bando de sujeitos inocentes e tristemente iludidos com a perspectiva de um amanhã esplendoroso e perfeito. Ah! Nós queriamos consertar o mundo e torná-lo menos ruim. Nós julgávamos que éramos capazes de transformar com ideias tudo o que, com ideias, havia sido construido pelos antepassados. Éramos tão ingênuos, tão castos, tão imaturos!
Os anos vieram como as chuvas de verão que vêm e que vão. Todos os anos, sempre à mesma época, elas chegam e se desmancham sobre tudo e sobre todos. Assim foram os anos que se sucederam àquela época de inocência e idealismo. As barbas ostentadas não tinham relação alguma com a rebeldia imbecil dos dias de hoje. Antes havia pelo muito campos de trabalhos forçados e seres humanos sendo tratados como escravos. Eram tempos onde se morria por ideais. Havia a União Soviética, havia os poetas dissidentes, havia os intelectuais que, na clandestinidade, produziam suas peças de desabafo e revolta, e as exportavam gratuitamente para o "mundo exterior" - aqui, onde imaginávamos viver a democracia dos militares represssores.
Quantas páginas escritas desapareceram no curso dessas tantas décadas! Quantas brochuras cheias de textos, ideais, reflexões, desabafos, confissões íntimas, revoltas foram tragadas pelo lixo do descaso por nossa própria anterioridade. Era como se nunca fôssemos ficar velhos, encarquilhados, com dores as mais estranhas e invisíveis - dores, às vezes, mais suaves e amenas do que aquelas que teriamos na alma, com as perdas e com as decepções.
Mas os velhos camaradas eram inquestionavelmente os velhos camaradas! Congelados na memória, imunes à erosão e à contaminação, eles sempre viveram a clara realidade dos sonhos que nunca morrem.
Enfim, eis que chegamos no auge de uma vida. Aquela fase óbvia e inevitável quando o vôo atinge o seu ponto culminante e que só resta descender por necessidade. Já não dá para subir além desse vôo solitário e corajoso. Chegamos, pois, a termo de uma fase, um novo ciclo se inicia. O mundo que vimos não é mais o mundo que vivemos. Coisas aconteceram. Coisas em demasia. As gerações que nos sucedem são produções independentes de muito desamor, de prazer travestido de irresponsabilidade, e se são o que são, e se se rebelam com as coisas e não têm o mesmo jeito de valorizar as coisas que merecem ser valorizadas, não fazem porque sejam ruins: eles são, sumaria e cruelmente, frutos dessa ruindade.
Os velhos camaradas eram filhos dos pais. Tinham família e história. Tinham os domingos regado a macarronada, sobremesa e muito primo para discutir futebol. Tinham as tias zelosas, as avós entronizadas na viuvez dos velhos avôs desaparecidos, e as familias falavam uma lingua de gritos, risos e aquela animação que motivava repetirem a dose no domingo seguinte. Nós, que éramos os camaradas, sequer cogitávamos que fôssemos chegar àquilo que eles, os velhos, eram. Porque nós não envelheceríamos. Aliás, nem pensávamos nisso. Havia toda uma vida, um sentido, uma razão imperiosa que nos compelia a continuar caminhando, e a vida era, e é, sempre foi, uma caminhada exaustiva, mas gratificante.
Hoje nós somos os velhos camaradas. Falamos do passado como se ele fosse o primor e modelo bem acabado da perfeição sobre a terra; mas nós sabemos que também, naqueles tempos, tinhamos os nossos problemas, e que as coisas não eram bem do jeito que nossas mentes teimam em idealizar. Porém, tinhamos caráter, valores, sabiamos dosar bem o por favor com o muito obrigado. Os velhos tinham preferência, eram ouvidos, ainda que muitos discordassem. Por serem mais velhos, eles próprios traziam o seu passado para o presente e insistiam em dizer que no meu tempo as coisas eram bem diferentes. Porque sempre houve, e haverá, um outro tempo.
Porque somos os velhos camaradas de hoje, passamos à condição de história. E mesmo que tenhamos plena consciência do nosso dia atual, da nossa contemporaneidade, ainda assim trazemos, como que puxado por fios mágicos, o novelo da nossa história de lá de trás, naqueles tempos onde não existiam, ao menos para nós, os velhos camaradas. Porque todos eram ou jovens ou velhos: não existia zona de transição.
Os únicos que não podem compartilhar conosco as aventuras de uma existência regada a juventude e atrevimento, são aqueles que, por capricho da vida, tiveram que se ausentar para uma viagem sem volta. Eles mesmos, ainda que ausentes, são a página incompleta da história, quando os fatos são interrompidos e não permitem que se conclua o que havia sido começado.
Que seja, portanto, uma homenagem sempre e eterna, aos sempre velhos camaradas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Uma visita e algumas reflexões

Não é fácil chegar quase aos sessenta. Por razões que só a nós, quase-sessentões, dizem respeito, chegamos àquele ponto crucial da vida em que as reflexões, por insistência e por motivos óbvios, passam a compartilhar o nosso espaço e os nossos momentos que anteriormente eram ocupados apenas pelos nossos pensamentos. Aliás as reflexões são uma espécie de pensamentos que passaram do ponto, ou que amadureceram. Não só os homens ficam velhos; os pensamentos, as ideias também envelhecem, não no sentido de ficarem desatualizadas, mas elas acompanham a nós como uma silenciosa solidariedade. Sem querer elas seguem o mesmo curso, paralelamente, respeitando nossos espaços e nos instantes de solidão.

Por que digo tudo isso? Talvez porque eu veja nos amigos aquilo em que me tornei. Nós éramos pessoas diferentes; éramos jovens e esbanjávamos saúde, vitalidade, certa irresponsabilidade permitida (porque éramos também parte de uma geração que agia irresponsavelmente atrás de uma causa justa); tinhamos o mundo à nossa frente e sabiamos (ou não) que ele poderia ser explorado à exaustão. Viviamos as ilusões e as fantasias da nossa época. Nós estávamos há trinta e poucos anos dessa explosão globalizadora de aglutinar o mundo dentro de uma telinha de computador e nos sites de relacionamentos. Nós escreviamos cartas, faziamos poesia e música, e muitos - ou a grande maioria - andava de cabelos longos como forma de rebeldia, não havia modismo nisso, era pura rebeldia, uma maneira pacífica de dizer ao mundo (adulto) que nós também tinhamas coisas a dizer e a fazer.

O tempo (inexorável) passou; e nessa passagem deixou marcas profundas e muitos de nós. Os espelhos refletem sem quaisquer artifícios que "aqueles" moços ficaram lá no passado, são parte da História, congelados e imutavelmente incapazes de sofrer qualquer tipo de assédio do Tempo.

Tudo isso porque eu me vi no amigo que visitei. Ele me apresentava às pessoas à sua volta com o "colegão", e eu me via em cada gesto dele. Ali, limitado a uma cama de hospital, sendo obrigado a ficar preso às determinações de uma autoridade médica, e por motivos mais do que justos, estávamos, por assim dizer, cada qual de um lado do muro. Ele, lutando contra um tratamento longo e desgastante; eu, a visitá-lo como alguém que ainda não foi afligido por algum tipo de mal que o curso dos anos traz.

Bem humorados nós estávamos. Era (e é) preciso levar a coisa com bom humor. No fundo a ideia é apenas superar os problemas nessa grande equação matemática onde vida, experiência, vitórias e decepções se igualam a uma variável a ser calculada, tomando-se por base uma informação básica em que ela não é maior nem igual a absolutamente nada. Sempre haverá um resultado que torne essa equação factível e verdadeira.

O Zé está bem. Um pouco combalido e onze quilos mais magro. Dos três mosqueteiros que éramos, posso dizer que sou Porthos - alguns quilos mais pesado, tentando chegar na velhice profunda com um corpo menos denso e mais flexível.

A Irani, sua esposa, estava lá, e uma prima que chegou depois. Ficamos ali numa tertúlia agradável, trocando figurinhas, o Zé sem jamais perder o gosto refinado de contar histórias, e eu ali a prestar atenção e a pensar que aquilo, excetuando a situação dolorosa da doença, sempre foi assim: nós três numa rodinha a contar episódios, porque a nossa vida era apenas um rascunho do que viria algumas décadas depois.

O Zé está bem. Vai ficar bem. A gente ficou um bom par de anos sem se ver. Mas é como se nunca tivemos deixado de nos visitar nesses últimos trinta e poucos anos.

Voltei animado. Uma sábado de verão ensolarado, quente, acreditando que logo mais ele estará em sua casa convalescendo e pronto para retomar sua vida.